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Série brasileira do Netflix nasceu na Escola de Comunicação e Artes da USP

Com mais de 340 mil curtida na página oficial do Facebook, "3%" conquista audiência

Entre os mais de 130 mil candidatos que se inscreveram na Fuvest em 2017, menos de 7% conseguirão a tão sonhada vaga na USP. Na primeira série brasileira disponível na principal plataforma de streaming do mundo, a Netflix, apenas 3% dos jovens inscritos no chamado “Processo” alcançam o paradisíaco “Maralto”.

Apesar de situarem-se em universos totalmente distintos, Fuvest e a série 3% têm um forte laço em comum, além da aparente meritocracia: os criadores da distopia passaram pelo maior vestibular do País e o conceberam enquanto estudavam audiovisual na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

É o caso de Jotagá Crema (ele concedeu esta entrevista por telefone), que dirigiu e escreveu parte dos oito episódios da primeira temporada da série na Netflix. O jovem diretor e roteirista se formou na ECA em 2011, mesmo ano em que o primeiro piloto de 3% foi lançado no YouTube, em formato de websérie.

Segundo o ex-aluno da USP, a inspiração para a história veio de 1984, de George Orwell e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, livros que Pedro Aguilera — colega de sala de Crema e criador de 3% — acabara de ler, em meados de 2009.

Juntamente com Aguilera e mais duas estudantes do audiovisual, Daina Giannecchini e Dani Libardi, eles dirigiram a primeira versão de 3% para um edital do Ministério da Cultura, o FICTV/Mais Cultura, voltado para o público jovem das classes C, D e E. Apesar de não ter vencido o edital, a websérie conquistou fãs com o lançamento na internet, dando força para que o projeto continuasse.

A despeito da boa repercussão, ele não conseguiu deslanchar em um primeiro momento e foram várias as recusas para a produção da série completa. Para Crema, a dificuldade se relaciona com o momento do audiovisual brasileiro na época. “(Nós estávamos em um período) em que era bem mais difícil fazer um projeto de série, porque não tinha, por exemplo, a Lei do Cabo, não tinha o Fundo Setorial do Audiovisual, não havia esses mecanismos”, explica.

Com a dificuldade em emplacar o projeto, eles investiram em uma estratégia que Jotagá Crema chama de “marketing de guerrilha”, divulgando o piloto em sites, jornais, páginas do Facebook e até mesmos em fóruns da internet. Investiram também no público estrangeiro, adicionando legendas em inglês e divulgando-o em sites de outros países.

E foi dessa forma que 3% alcançou Erick Barmack, vice-presidente de conteúdo original da Netflix.

Repercussão

3%, produzida pela Boutique Filmes, estreou no dia 25 de novembro, última sexta-feira do mês em 2016. Apesar da plataforma de streaming não divulgar os dados de público de nenhum de seus conteúdos, a série brasileira agradou à Netflix. A despeito das críticas negativas na imprensa nacional — e boas críticas na mídia internacional, vale ressaltar —, 3% foi renovada no dia 5 de dezembro, apenas dez dias após o lançamento.

A menos de dois meses no ar, agradou também os públicos estrangeiro — apesar da barreira da língua, de certa forma desmistificada com o sucesso de Narcos — e brasileiro: a página oficial já ultrapassou 300 mil curtidas no Facebook, e as duas principais páginas de fãs, ambas chamadas “3% da depressão”, já alcançam 140 e 85 mil curtidas.

A principal camada que 3% atinge é o público jovem. A explicação para esse direcionamento pode estar nas inspirações e na vivência que Aguilera e os demais envolvidos no projeto tinham à época da concepção da série. No quarto ano da faculdade, os então estudantes inseriram na criação do “Processo” suas angústias passadas e futuras. “O ‘Processo’ do 3% é legal porque instiga muito os jovens ao trazer essa múltipla identificação, tanto pelo vestibular quanto pelo crescimento para a vida adulta e a entrada no mercado de trabalho. E aí ganha várias dimensões, por isso é tão intenso”, aponta Crema.

A primeira temporada de 3% é focada no “Processo” do ano 104 e em alguns de seus candidatos, como Michele (Bianca Comparato), Fernando (Michel Gomes), Rafael (Rodolfo Valente) e Joana (Vaneza Oliveira). Apesar dos primeiros episódios da série não explicarem o que causou a devastação do planeta, o cenário remonta aos filmes pós-apocalípticos, onde a miséria é absoluta e as condições de vida sub-humanas. Ao menos para 97% da população.

Na série, aos 20 anos, todo habitante do “Continente”, localizado em algum ponto da Amazônia Subequatorial, tem direito a passar por uma série de provas que testam os seus limites físicos e psicológicos. Ao fim, apenas três de cada cem participantes são aprovados, conquistando o direito de entrar no “Maralto”, onde há abundância e boas condições de vida.

“Você é o criador do seu próprio mérito” é a frase que rege o “Processo” e é insistentemente repetida por Ezequiel, que o chefia. O personagem de João Miguel é a síntese da crença na meritocracia, ainda que a falta de equidade mesmo entre os habitantes da miséria torne-a ambígua e, no mínimo, contraditória.

Há um esforço dos roteiristas e diretores da série, porém, para não tornar tanto “Processo” como personagens uma simples disputa entre bem e mal com o reinado do maniqueísmo. “A gente quis criar personagens tridimensionais, com várias camadas, vários conflitos, inclusive éticos e morais. Nós aprofundamos muito os personagens, criamos essas contradições e é muito legal, pois isso gera muito interesse, deixa os personagens mais humanos e as curvas deles mais surpreendentes. Foi muito legal de acompanhar como as pessoas reagem às viradas na série”, explica Crema.

ECA

Apesar da direção geral da série ser de César Charlone (indicado ao Oscar de Melhor Fotografia por Cidade de Deus), boa parte da equipe de 3% passou pela Escola de Comunicações e Artes da USP, incluindo os montadores e outros profissionais. Além de Aguilera, Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, outros estudantes do audiovisual da ECA na década passada, como Cássio Koshikumo, Denis Nielsen e Ivan Nakamura também dirigiram e participaram da criação do roteiro da série.

Para Jotagá Crema, a passagem pela ECA e pela Escola Politécnica foram fundamentais para dar a base de criação e raciocínio que ajudou no sucesso de 3%. “De certa forma, o Curso do Audiovisual serviu para abrir a nossa mente para pensar o audiovisual. Ainda mais em uma área que muda tanto, está em mudança constante com o digital, com as novas linguagens, novas formas de divulgação. Mas o núcleo principal, que é a linguagem cinematográfica, o curso é muito competente em fornecer e as pessoas com quem eu estudei são as pessoas com quem eu estou trabalhando hoje em dia”, aponta.

Netflix e Brasil

Maior produtora de conteúdo original em 2016 (43 títulos), a Netflix tem no Brasil um de seus mais fiéis públicos. A estreia de 3% foi a porta de entrada para a plataforma no País, mas a gigante do streaming não pretende parar por aí. A rede anunciou em agosto o primeiro longa-metragem original brasileiro, intitulado O Matador e desde abril o diretor José Padilha (Tropa de Elite e Narcos) está trabalhando em uma série sobre a Operação Lava Jato para a Netflix.

Além disso, o público brasileiro terá ao menos mais uma temporada de 3% nos próximos meses. Crema não dá grandes detalhes sobre a trama, tampouco concede uma previsão sobre o lançamento, mas promete que a equipe da distopia está trabalhando duro para manter as qualidades da série e corrigir as lacunas que ficaram nos primeiros episódios.

Fonte: Jornal da USP

Foto: Divulgação/Netflix